Ideais românticos "aqui entre nós"
"Onde artistas formam uma família, ali estão as congregações originais da humanidade."
(Schlegel, F.,1997 – Idéias:fragmento 122.)
Desde 2008 o grupo Teia se reúne na Sala Azul para produzir arte conjunta, atividade a qual chamam de Sin-Poética. O grupo é composto de três artistas plásticos e um fotógrafo, alguns dos quais desenvolvem atividades em literatura e filosofia. A cada encontro podem ser recebidos convidados que interferem de forma espontânea e livre em todas as atividades. como os poetas do Primeiro Romantismo Alemão, esses autores também não assinam as obras, que são grandes suportes de tela, tinta, poesias escritas, colagem de materiais diversos aderidas ao corpo do trabalho. Não existem regras, o processo é contínuo e leva de 8 a 9 horas. Cada criação é encerrada quando uma mensagem de completude emana da tela, segundo o consenso silencioso de todos. O respeito pelos limites do trabalho colocado por cada componente, complementado ou avizinhado por cada acontecimento plástico, permite que exista um diálogo mudo, e o sinergismo faz de cada participante o mesmo indivíduo, a Teia. Todo o processo é registrado por fotografia, usada também para expressão artística, e a cada encontro é feita uma ata na qual são registradas as impressões livres individuais, discussões do grupo sobre o processo e poesias compostas no setting. O desdobramento do trabalho do grupo enfoca a arte política, o que incita o grupo a sair da Sala Azul para atuar em outros espaços. A experiência de ação externa foi inaugurado com a pintura de um poste em Niterói, entre outros 120 grupos de artistas, evento incentivado pela Galeria do Poste. As outras ações estão acontecendo em hospitais psiquiátricos, grupos de população de moradores de rua, praças, orfanatos e asilos públicos.
"...onde quer que o impulso e o espírito humanos atuem unidos, irrompe uma força mágica. Tenho contado com esta força; eu sinto o sopro do espírito pairando entre os amigos..." (Schlegel, F.,1994)
APADA
Fomos lá, fazer um trabalho com as crianças da creche da APADA -Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos - que recebe diariamente 50 crianças entre zero a seis anos. São crianças surdas ou ouvintes, filhas ou irmãs de crianças surdas, convivendo diariamente naquele espaço. Chegam pela manhã, estudam, fazem todas as refeições, inclusive o jantar. Juntas, exercitam, todos, o idioma da língua de sinais. Optamos trabalhar com os maiores, acima de cinco anos, que eram perto de 20. A Teia foi emocionada para a APADA, coração cheio de expectativas, muito material, tudo organizado, tela grande. Lugar de amor. Cuidadoras, professoras, merendeiras, todos sorriem e parece um lugar de festa. Lugar de amor.
Teia no Campo
Campo de São bento. Belo domingo de sol, depois da ameaçadora frente fria espantadora de Teias ao ar livre. Luz de maio, árvores, feirinha, cavalos, bolas, estalinhos, cachorros, e é claro, muuuuitas crianças. Entre 2 árvores, depois de muita luta, foi pendurada a Teia, objeto estranho, como um lençol secando. De que lado vai ser pintado? Instituimos o lado melhor, mas é claro que foram pintados os 2 lados.
Vinham as crianças, espontaneamente:
-O que é isso?
-O que vocês estão fazendo?
-Quanto custa?
Quanto tem que pintar prá pagar, quer dizer, quanto tem que pagar prá pintar?
Mães fingiam ajudar os filhos, mas queriam mesmo era pintar.
E aí ganhavam um picel:
-Mas eu não sei fazer nada...
-É fácil, mãe. É só pintar.
O tio, com a bola de futebol na mão, também pintou.
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-Eu vou fazer um arco-íris...
-Então vou fazer o sol...
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-Essa tinta sai?
Essa foi a pergunta que mais ouvimos.
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-Você não vai pintar porque essa blusa é nova e nós vamos sair .
-Mas as outras crianças também vão sair.
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Pintavam as mãos, fascinados:
-Se é prá ficar pintando a mão, nós vamos embora...
-Mas em casa não tem essa tinta?
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Pisavam na tinta, alguns ficaram muito tempo, a vó chamando prá ir embora.
outras ameaçavam:
-Filha, se você pintar, você vai se sujar!
-Mãe, se você falar, eu vou te pintar! E pintou mesmo...
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Menina, depois de voltar ao local da Teia:
- Isso está horrível, taparam o meu desenho. Mãe, vamos embora!
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Gabriel declarou que o trabalho o emocionou várias vezes...
-Isso foi de+, eu adorei. Espero que tenha de novo!
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Um menino de uns sete anos atacou a Teia com um grande pincel e tinta marron. Misturava as tintas e ria, e destruía todas as imagens. Estava de óculos escuros. Perguntado como ele conseguia ver as cores, ele impetuosamente pegou mais tinta, e sem responder, investia sobre todas as formas ali postas. A Teia sofreu, mas espero que isto o tenha ajudado um pouco.
Pobre Teia...
Uma menina de uns seis anos olhava. Perguntei: - O que você quer, meu amor? Ela beijou minha mão. Fiquei emocionada, perguntei seu nome. Ela disse, e então pediu: -Quero umas estrelas. Enchi suas mãos, que estavam azuis, com um punhado delas.
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"Texto quer dizer tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido - nessa textura - o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia."( BARTHES,2002:71)
Rastros
Uma tela de restos de telas emendadas. Muito difícil começar sobre uma proposta já posta.
De quem seriam as imagens primárias?
Qual a origem, há origem?
Qual o destino? O que virá?
